05/08/2014

Qual o seu status? por Hay


Estamos deixando o mundo virtual engolir nossas crenças, costumes e por que não a nossa personalidade e bom senso?

Os amigos mal se veem, não saem para aquele bate papo de fim de tarde, para ver o pôr do sol, trocar sorrisos, brincadeiras, momentos, lembranças...  mas trocam mensagens pelo facebook, whatsapp, postam fotos aqui e ali... um selfie feliz e perfeito! Ah e o melhor, o face te pergunta: “Como você está se sentindo...?”

E temos que levar em consideração também o nosso “status de relacionamento”... Porque hoje em dia essa é uma informação importante! As pessoas não se contentam mais em só curtir e/ou comentar, viramos novelas virtuais... perdemos amigos e ganhamos seguidores. 

Será que é isso mesmo?

Pois bem, me nego a viver nesse mundo e não, não tenho um status no facebook, fotos no instagram... vivo num mundo real, de abraços apertados, sorrisos sinceros e momentos vividos... Fotos registram momentos, mas eles podem ser eternizados na memória... porque é nela que podemos buscar em qualquer momento, em qualquer lugar... é onde a saudade, a vontade, o desejo, o carinho, o respeito e o amor vive... em nós mesmos... e não em máquinas e aplicativos.


Hay


Este texto é uma colaboração da Hay para o blog, nossos agradecimentos.

29/07/2014

As três palavras difíceis de dizer dos Avett Brothers

Em mais uma pesquisa musical, abaixo uma apresentação da excelente banda comandada pelos irmãos Avett (aqui).

I and Love and You (The Avett Brothers)




Load the car and write the note
Grab your bag and grab your coat
Tell the ones that need to know
We are headed north

One foot in and one foot back
But it don't pay, to live like that
So i cut the ties and i jumped the tracks
For never to return

Ah Brooklyn Brooklyn take me in
Are you aware the shape I'm in
My hands they shake my head it spins
Ah Brooklyn Brooklyn take me in

When at first I learned to speak
I used all my words to fight
With him and her and you and me
Oh but its just a waste of time
Yeah its such a waste of time

That woman shes got eyes that shine
Like a pair of stolen polished dimes
She asked to dance I said it's fine
I'll see you in the morning time

Ah Brooklyn Brooklyn take me in
Are you aware the shape im in
My hands they shake my head it spins
Ah Brooklyn Brooklyn take me in

Three words that became hard to say
I and love and you
What you were then, I am today
Look at the things I do

Ah Brooklyn Brooklyn take me in
Are you aware the shape I'm in
My hands they shake my head it spins
Ah Brooklyn Brooklyn take me in

Dumbed down and numbed by time and age
Your dreams to catch the world, the cage
The highway sets the travelers stage
All exits look the same

Three words that became hard to say
I and love and you
I and love and you
I and love and you

-&-

Carregue o carro e escreva o bilhete
Pegue sua mala e pegue o seu casaco
Conte aos que precisam saber
Que estamos rumo ao norte

Todos com um pé dentro e um pé para trás
Mas não tem problema viver assim
Então eu cortei os laços e pulei os caminhos
Para nunca mais voltar

Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me
Você está ciente da situação em que estou
Minhas mãos, elas tremem, minha cabeça, ela gira
Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me

Quando eu aprendi a falar
Eu usei todas as minhas palavras para brigar
Com ele e ela e eu e você
Oh, é apenas um desperdício de tempo
É um grande desperdício de tempo

Aquela mulher tem olhos que brilham
Como um par de polidas moedas roubadas
Ela pediu para dançar, eu disse que tudo bem
Vejo-te de manhã

Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me
Você está ciente da situação em que estou
Minhas mãos, elas tremem, minha cabeça, ela gira
Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me

três palavras que tornou-se difícil dizer
Eu e você eo amor
o que então eu sou hoje
olhar para as coisas que eu não

Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me
Você está ciente da situação em que estou
Minhas mãos, elas tremem, minha cabeça, ela gira
Oh Brooklyn Brooklyn, inclua-me

Imbecilizei e anestesiei meu tempo e era
Você sonha em pegar esse mundo, a gaiola
A estrada define o estágio do viajante
Todas as saídas têm a mesma aparência

Três palavras que tornaram-se difícil de dizer
Eu e amo e você
Eu e amo e você
Eu e amo e você


 Tradução X-letras (aqui)


João M. A. da Silva
Data: 29/07/2014
Hora: 12h50
Momento: Acordes
criticasconstrutivas.blogspot.com

24/06/2014

Revista Veja: Isto não é crime?

Revista Veja - Maio de 2011

 "Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo"
"No ritmo atual o Maracanã seria reaberto com 24 anos de atraso"
"Copa só em 2038"

Revista Veja - Junho de 2014
 
"Só alegria até agora"


O tal clima pessimista e de mau humor, o chamado "não vai ter copa" ou até mesmo o complexo de vira-lata (aqui) tem responsável e responsáveis. Acima, uma degustação das armas dos criadores do pânico aos brasileiros e aos turistas estrangeiros. Triste né, isto não é crime?


João M. A. da Silva
Data: 24/06/2014
Hora: 22h31
Momento: Copa em casa
criticasconstrutivas.blogspot.com

10/06/2014

Cptec integra projeto para emitir alerta de risco de dengue as 12 cidades-sede da Copa

Áreas de risco podem ser demarcadas com até três meses de antecedência graças à aplicação de modelos matemáticos. 

Técnico do Cptec/Inpe em computador da instituição. Foto: Arquivo/OVALE

Por Wagner Matheus, Especial para O Vale (aqui).

Um trabalho científico produzido por várias instituições nacionais e do exterior — dentre elas o Cptec (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de Cachoeira Paulista — servirá de alerta para torcedores brasileiros e estrangeiros durante a Copa do Mundo. O sistema alerta para riscos de casos de dengue em 553 microrregiões brasileiras, incluindo as 12 cidades que receberão os jogos da Copa. Natal, Fortaleza e Recife apresentam maior risco de epidemia.

Antecipação. Segundo o meteorologista e pesquisador na área de clima do Cptec/Inpe, Caio Coelho, a importância do estudo é incluir uma nova variável — o clima — nas previsões sobre áreas afetadas pela dengue, com a vantagem adicional de antecipar em três meses a demarcação das áreas de risco.
“Acrescentamos os estudos sobre chuvas e temperatura a diversas outras informações sobre a doença.”
O trabalho de gerar previsões para as 12 cidades onde serão realizados os jogos da Copa começou em fevereiro com a coleta de dados climáticos, que foram juntados aos relatórios de contagem de casos de dengue em março. A conclusão do trabalho ocorreu este mês.
A contribuição do Cptec/Inpe no projeto foi por meio das previsões climáticas sazonais de precipitação e temperatura para o período de março a maio.
As previsões fazem parte do projeto Eurobrisa, liderado pela instituição. “O trabalho classificou as cidades-sede com maior risco de uma epidemia de dengue durante a competição”, disse Coelho.

Processo. O sistema utiliza dados climáticos, já que chuvas e altas temperaturas produzem um efeito importante na transmissão da dengue em áreas propensas a epidemia, favorecendo a proliferação do mosquito transmissor e a disseminação do vírus da doença.
As previsões e alertas são produzidos a partir da combinação de dados climáticos associados a variáveis sociais e ambientais, processados em modelos matemáticos.

Publicação. Considerado inédito no país, o novo procedimento poderá ajudar outras áreas de incidência de dengue com previsões feitas com maior antecedência que os métodos atuais.
O ineditismo valeu a publicação de artigo sobre o trabalho na revista científica “The Lancet Infectious Diseases”, tendo o pesquisador Caio Coelho com um dos coautores.
O sistema de alerta foi desenvolvido por uma equipe internacional e multidisciplinar. Além do Cptec/Inpe, participaram as seguintes instituições: Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Ministério da Saúde, Universidade de Brasília, Instituto Catalão de Ciências Climáticas (Espanha), UK Met Office e Universidade de Exeter, (ambos da Inglaterra).
O pesquisador brasileiro explicou que a origem do trabalho ocorreu há alguns anos graças à iniciativa da doutora em meteorologia Rachel Lowe, inglesa que adotou o tema para o seu doutorado e, agora, liderou o estudo.
Uma fase das pesquisas da doutora Lowe foi realizada na sede do Cptec/Inpe.

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Opinião

O artigo completo pode ser acessado aqui. Uma pesquisa com foco no bem da população é digna de aplausos, com resultados práticos que esta sendo utilizado para a monitoria e ação de contorno deste mal que ainda nos afeta chamada dengue, uma doença oriunda de países em desenvolvimento com infraestruturas ainda precárias.



João M. A. da Silva
Data: 10/06/2014
Hora: 20h30
Momento: Isso sim que é gol do Brasil
criticasconstrutivas.blogspot.com

12/05/2014

As águas dos ventos uivantes

Não lembro quantas eram
Mas lembro de como eram.

Salgada ela estava
Tão perto de mim ficava.

Puxava-me quando eu não queria
E fora dela sem nenhuma correria.

Um céu de brigadeiro
Com um azul tão verdadeiro.

Um barulho se aproximava
E aquele azul já nos deixava.

Um vento forte fazia
Um cinza escuro o céu trazia.

Aquela água deitada
De pé agora ficava.

Ondas fortes eu vejo
Mesmo não sendo o meu desejo.

Talvez seja apenas um grito
Com um forte atrito.

Mas era tão mágicos e tão tocantes
As águas dos ventos uivantes.



João M. A. da Silva
Data: 12/05/2014
Hora: 19h55
Momento: A pedido da gatinha
criticasconstrutivas.blogspot.com

28/04/2014

Petrobras: um novo olhar

Esta prestes a sair a CPI da Petrobras, como suplicado pelo senador Aécio Neves, candidato a presidência pelo PSDB (aqui).

Mas, e tudo tem um mas... se você costuma conhecer as notícias por intermédio de grandes veículos da imprensa nacional (Globo, Folha, Estadão, ...), lhe indico o blog da Petrobras, Fatos e Dados, que responde sem muitos rodeios todas as dúvidas, fatos e até mesmo "maldades" referente a empresa, segue o link aqui.

http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/





João M. A. da Silva
Data: 28/04/2014
Hora: 23h15
Momento: A prática da critica construtiva exige o olho esquerdo e direito funcionando em perfeito estado.
criticasconstrutivas.blogspot.com

20/04/2014

Umberto Eco: "A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele"

Abaixo reproduzo uma interessante entrevista com o escritor e filósofo,  Umberto Eco (site aqui) feita pela revista Época em 2011 (link aqui) por Luís Antônio Giron, de Milão. Nela Sr. Umberto fala sobre informação, conhecimento, internet e literatura.



ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco -
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco -
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco -
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco -
Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco -
Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco -
Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco -
Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco - 
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco -
Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco -
 Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco -
Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco -
Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco -
Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco -
Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco -
Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que não é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco -
O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco -
Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco -
Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco -
Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco -
Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco -
Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco -
Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?
Eco -
Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco -
Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.


João M. A. da Silva
Data: 20/03/2014
Hora: 23h25
Momento: Consciência crítica: a construção do filtro
criticaconstrutivas.blogspot.com